Postado em 22 de julho de 2020
Aqui no blog da Novo Nascer teremos mensalmente depoimentos de dependentes químicos em tratamento, que conseguem dia-a-dia superar os vícios através de diferentes tipos de terapias. Hoje, o conselheiro em recuperação do Hospital Novo Nascer, o Marcus Vinicius Marques Pereira, conta sua história de superação. Ele está há dez anos e quatro meses sem as drogas e, hoje, ajuda dependentes a se recuperarem. “Acredito que a busca pelo autodesenvolvimento deveria ser objetivo-mor de todos os seres humanos. Acredite na superação”.
“Comecei a usar drogas aos 18 anos. Maconha. E apesar de já ter experimentado cigarro e álcool de forma esporádica, essa foi a primeira substância ilícita que tive acesso. O ano era 1999 e, naquele momento, minha vida estava bem medíocre. Tinha acabado de reprovar o primeiro ano da faculdade e meus dias estavam resumidos a acordar, almoçar, ver TV e interagir com alguns amigos do bairro. Isso me deixava com um tempo bastante ocioso. Ficávamos até tarde da noite na casa de um desses amigos, jogando truco, canastra e bebendo café.
Sempre que retornava para casa, minha mãe brigava por conta do horário que eu chegava e, de forma desproporcional, discutia por conta do meu comportamento nada promissor. Nossas discussões foram aumentando gradativamente. Os motivos eram variados. Às vezes, pelo horário em que eu costumava retornar do carteado, pela hora em que eu acordava no dia seguinte, por estar desempregado, por não demonstrar com afinco uma perspectiva de mudança. Enfim, realmente era perturbador conviver com ela – era o meu sentimento na época. Eu não tinha o senso crítico da situação e não conseguia conceber que aquele estresse dela era um alerta de que algo de errado estava acontecendo comigo.
Até que, numa dessas brigas, ela insinuou que eu estava me drogando, fumando maconha, mais especificamente. Porém, eu nunca tinha experimentado e, pra falar a verdade, tinha medo do contato com drogas. Me lembro que, naquele dia, ela disso que eu era um atraso de vida. Confesso que essas palavras reverberaram na minha cabeça por anos. Minha mãe tinha uma capacidade exemplar em humilhar usando as palavras. Não estou culpando-a pela minha “drogadição”. Usar drogas foi uma escolha minha. Apenas estou relatando como aconteceu de fato. E, diante deste e de outros conflitos, me senti instigado e percebi que algo dentro de mim havia acordado.
Senti um certo prazer em saber que se eu usasse drogas estaria “ferindo” ela. Então, como que por vingança, me dirigi ao encontro do maconheiro mais conhecido do meu bairro e pedi para me chamar quando fosse fumar. Então, ele me fez uma pergunta que até hoje fico impressionado quando lembro: “Porque você quer fumar? Problemas com a família ou com a namorada?”. Hoje, trabalhando na área de saúde mental e dependência química, percebo que essa pergunta foi quase uma previsão do que eu encontraria pela frente. Ele disse, de forma muito assertivamente, que usar drogas mostra que, na maioria dos casos, algo não está bem. Hoje, faço a mesma pergunta quase que diariamente aos meus pacientes.
Deste ponto em diante meu consumo de drogas seguiu uma constância recreativa. Junto ao álcool e cigarro, a maconha se tornou uma prática habitual e, aparentemente, inofensiva. Em 2003, fui em uma festa rave pela primeira vez e lá fui apresentado a diversas substâncias alteradoras da percepção. Álcool, cigarro e maconha já eram habituais, seguidas por merla, cocaína, ecstasy, LSD, fármacos e cola de sapateiro. As drogas proporcionam um prazer que inebria nossa capacidade de enxergar, de forma crítica, o contexto em que estamos inseridos. Como o rato, de Tom & Jerry, zigue-zagueando pra cima e pra baixo capturado pelo aroma do queijo.
Os anos foram passando e meu corpo foi criando tolerância e, consequentemente, o consumo foi aumentando gradativamente. Sem perceber, os problemas anteriores ao uso permanecem sem solução, e a vida vai apresentando mais situações difíceis para serem resolvidas. A vida vai acontecendo e não pergunta se a gente tá preparado ou não. Claro que a opção mais confortável era usar mais drogas. Pois, diante da minha inabilidade em viver, essa era a minha alternativa mais simples. E, por mais que eu quisesse reestabelecer o controle da minha vida, não estava disposto a pagar o preço necessário, pois isso acarretava abandonar a única coisa que me “ajudava a encarar” tudo.
Através da influência de amigos e desta inabilidade em viver continuei a experimentar combinações de drogas numa tentativa vã de fugir da realidade e tentar preencher um vazio interno impreenchível. Dessa forma, segui vivendo na expectativa de que meus problemas se resolvessem por si só. Como num passe de mágica.
Em 2004, minha mãe teve meningite meningocócica e ficou dois meses desacordada na UTI, mas conseguiu se recuperar. No dia da alta do hospital, já em casa, um amigo dela me ofereceu um emprego terceirizado. Deixei Belém e parti rumo à Macapá, numa tentativa de me reinventar e resolver meus problemas.
Macapá tinha tudo para ser um divisor de águas na minha vida. O ano era 2005. Morando só e ganhando um salário tive a oportunidade de começar do zero e me reinventar em todos os aspectos. Afinal ninguém me conhecia e eu poderia ser quem eu quisesse. E isso seria uma excelente oportunidade de mudança. Mas não foi o que aconteceu. Em menos de um ano fui demitido por faltar muito ao trabalho. Já não estava conseguindo conciliar o uso de drogas com a vida profissional. Naquela época, quase diariamente, usava pasta de cocaína, uma espécie de borra que sobra do refino da cocaína em pó.
No trabalho, conheci uma mulher mais velha. Porém, o que para ela parecia um relacionamento, para mim era uma excelente oportunidade de seduzir e vampirizar ao máximo o que aquela mulher pudesse me ceder. Manipular e me relacionar por interesse financeiro já eram estratégias familiares no meu repertório social. Meu objetivo era o consumo de substâncias, não importava o que eu tivesse que fazer para consegui-las. Já tinha transformado a casa que eu morava num local de encontro de drogados, onde eles sempre levavam minha parcela de substâncias em troca de um ambiente tranquilo pra se chaparem. Meu corpo apresentava uma tolerância incomum, como se nunca estivesse satisfeito. O uso de drogas estava numa progressão absurda. Secretamente, desconfiava que se continuasse morando sozinho o final dessa história poderia não ser agradável e isso me apavorava. Então resolvi morar com a mulher que eu extorquia.
Os anos se passaram e, entre idas e vindas, eu continuava me drogando. Penhorava câmeras digitais, celulares, roupas, notebook e, até comidas da dispensa de casa, serviam como moeda de troca pela droga. Sem a capacidade de avaliar o contexto que me encontrara a única alternativa viável era continuar usando drogas.
Subitamente, minha parceira foi convocada na seleção de um concurso público, fazendo com o que nossa situação financeira ficasse ainda mais favorável. De repente, me vi saindo da concessionária de carro zero e morando numa casa estilo veraneio, com churrasqueira, piscina e palmeiras no quintal. Tudo o que um drogado mimado e inconsequente almeja eu tive. Desse ponto em diante minha drogadição aumentou consideravelmente. Quanto mais dinheiro, mais droga. Foi quando conheci o crack.
Em 2008, eu realmente já não sabia o que estava acontecendo direito. De repente, vi minha vida tomando um rumo difícil. Hoje, quando analiso as coisas que passavam pela minha cabeça naquela época sinto um leve arrepio na espinha, pois lembro claramente dos pensamentos obscuros que me visitavam, me fazendo crer em coisas irreais, beirando a insanidade, quase enlouquecendo. Hostil, ressentido, egocêntrico e inflexível fui me afastando mais e mais das pessoas e do convívio social. Fui preso, me envolvi em situações degradantes, dormi na rua, fui ameaçado, corri risco de vida. Andei com pessoas que realmente viviam à margem da sociedade, estelionatários, ladrões, assassinos e pedófilos. E pra andar nesse meio é necessário desenvolver uma armadura pra conviver nesse ambiente. Vi e vivi coisas que eu gostaria de não ter visto nem vivido.
Como se toda essa situação que eu estava inserido não bastasse, a minha parceira engravidou. Ter um filho é um processo apavorante pro viciado. Afinal, como cuidar de outro ser humano se não consigo cuidar nem de mim mesmo?
Em outubro de 2008, a Maytê nasceu. A princípio ser pai não mexia comigo e, inconscientemente, rejeitava a paternidade. Enquanto isso, eu fazia reflexões acerca dos prazeres causados pelo crack. Costumava afirmar que a sensação de fumar uma pedra era como se flutuássemos. Como se Deus mandasse os anjos do céu pra me carregar.
Ser dependente químico é como sofrer da Síndrome de Estocolmo. Desenvolvemos uma relação afetiva com aquilo que está nos matando. Nos apaixonamos pelo nosso algoz.
Em dezembro de 2009, eu estava sozinho num quarto de uma pousada no interior de Macapá, numa cidade chamada Tartarugalzinho, usando muito crack. Tanto que, às vezes, esquecia-me de onde eu estava e precisava deixar passar o efeito para poder entender o que estava acontecendo. Era réveillon e, neste dia, foi o pior uso da minha vida. Já estava há três dias sem tomar banho, sem comer e sem escovar os dentes, fedendo, defecado e isolado num quartinho. Tinha alucinações auditivas e visuais, ouvia vozes e via coisas sem nexo. Fui visitado por um sentimento aterrador de medo e desespero.
Fui mandado de volta a Belém, pois ninguém mais conseguia lidar comigo. No dia 2 de março de 2010 fui internado em uma Comunidade Terapêutica, numa tentativa de restaurar a minha sanidade e aliviar a minha dor de viver. Exausto de ser quem eu era, pela primeira vez em anos, comecei a entender o que estava acontecendo comigo. Fui apresentado as informações sobre a doença que é a adicção.
Deste ponto em diante comecei a entender que a mudança era possível. Depois de quatro meses internado voltei à sociedade para tentar funcionar, desta vez de forma mais adequada. Frequentei grupos de ajuda de Narcóticos Anônimos, desenvolvi minha espiritualidade, fui apadrinhado, obtive orientações de mentores no meu processo de recuperação. Aos poucos, fui recuperando minha dignidade, saúde mental e autonomia psicológica.
Comecei a trabalhar com dependência química a convite de um amigo. Desde então, tento compartilhar com quem precisa um pouco da minha história, no intuito de encorajar o drogado a desenvolver uma perspectiva de esperança em relação a sua própria vida. Se eu consegui, qualquer um que se propor também consegue.
Passaram-se 10 anos desde então. Hoje, moro em Recife e trabalho em um dos maiores complexos hospitalares para tratamento de saúde mental do norte e nordeste do Brasil. Sou Conselheiro em Dependência Química. Me sinto reconhecido profissionalmente. Me sinto preenchido ao ver acontecendo na vida dos outros o milagre que aconteceu na minha vida. Hoje, entendo o que a minha mãe tentava fazer comigo, ela só queria meu bem. Hoje, entendo porque rejeitava a paternidade. Maytê é a joia mais preciosa que tenho. Hoje, entendo os conflitos emocionais que me transtornavam e compreendo que, naquela época, não conseguia lidar. Foi preciso uma mudança drástica na estrutura básica da minha personalidade. Hoje, me sinto feliz, mesmo com meus fantasmas. Entendo como a vida funciona. E tento me harmonizar com o fluxo da existência. A cada dia que passa me sinto mais vivo, mais humano, mais capaz, e adoro isso. Adoro saber que o que eu quiser eu posso conseguir: se eu me dedicar e pedir ajuda pra isso. Só por hoje”.
Marcus Vinicius Marques Pereira – conselheiro em recuperação do Hospital Novo Nascer
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